O meu amigo Miguel d’Alte deixou-me o seu exemplo.
Conheci-o em 1987 quando foi meu professor de Pintura na Cooperativa Árvore, cativado pela sua personalidade impar convivemos de forma próxima durante os anos seguintes.
Primeiro na relação académica e de ensino e depois numa amizade pessoal forte que perdurará para além da sua vida.
O Miguel era um lutador que não sabia perder.
Como Pintor:
Durante os anos em que partilhamos o atelier na rua de Cedofeita, foram muitas as vezes que o deixei já tarde ainda a pintar e o encontrei em frente ao seu quadro no dia seguinte de manhã.
Quando partia para a frente de uma tela em branco o Miguel não facilitava o seu trabalho avançando por caminhos anteriormente desvendados.
Era um verdadeiro processo de diálogo livre e aberto entre ele e a sua obra, em que o Miguel libertava todos os desafios, desequilíbrios e dificuldades para mais tarde dominar e vencer.
Sem intervalos, sem descanso e muitas vezes sem dormir, pois só quando vencia esse desafio e dominava a sua obra é que voltava a encontrar a paz, não haviam derrotas. Era de tal ordem o seu esforço para dominar os elementos da sua pintura que muitas vezes a transformação que sofriam ao longo do processo os tornavam em verdadeiros filmes.
A paz não durava muito, pois imediatamente a seguir estava a começar outro trabalho; como ele próprio dizia muitas vezes: não sei fazer outra coisa, só sei pintar!
Era esgotante, era profundo, era sincero e verdadeiro.
Mas também era vitorioso, o resultado está connosco!
Como pessoa:
O seu nível de exigência para consigo mesmo era elevadíssimo (valor muito raro na minha opinião)
Como jamais subiria um degrau que fosse na escadaria do sucesso ou do reconhecimento sem que fosse conquistado por mérito próprio, sempre se sentiu com pleno direito para denunciar aqueles que com falsos intelectualismos se pretendiam colocar na escadaria social ou cultural.
São muito poucos aqueles que à custa dos seus próprios valores e cumprimento rigorosíssimo dos mesmos, têm direito aquele rancor que quem o conhecia de perto sentiu muitas vezes.
A dignidade do Miguel era conquistada dia a dia pelo seu trabalho.
O Miguel era um homem seguro de si porque sabia o preço verdadeiro da sua posição, porque o tinha pago com o seu sacrifício, o Miguel não vacilava em nenhum limbo para agradar a Gregos e a Troianos.
O Miguel era um homem que sabia o que queria, o que pensava, e o muito bem o que fazia.
Obrigado Miguel
Eduardo Sotto Mayor | 28-04-2008 17:12:14
Antes do Homem conhecia a Obra do Miguel e através da sua Obra comecei a admirá-lo. Depois quando mais tarde o encontrei na Árvore, em Cerveira, no atelier do João Carqueijeiro, na minha Galeria, onde participou numa colectiva, pude apreciar aquele diamante em bruto que era o Miguel.
Quando digo diamante bruto digo-o porque por vezes ele escondia atrás de uma certa rudeza a luz que tinha dentro.
A sua incapacidade de bajular, de fazer bonito para receber um elogio, o desprezo que o atacava quando via a hipocrisia que campeia neste pequeno mundo das artes, tornava-o às vezes num ouriço eriçado. Mas não conseguia esconder a sua bondade.
Para além disso também não me posso recordar do Miguel sem lembrar o seu humor.
Inteligente, sarcástico, crítico e às vezes infantil porque duma grande pureza.
“Quando um dia eu tiver um cão, vou-lhe chamar “Dinsky”, porque já tenho uma gata chamada Christie (é a Agatha Christie, depois…vou ter um cão Dinsky…”
O Miguel terá sempre um lugar no coração das pessoas que o conheceram e que não o vão esquecer e a sua Obra será seguramente reconhecida, disso não tenho nenhuma dúvida
Júlia Pintão
Júlia Pintão | 07-05-2008 0:18:05
Para o Miguel a pensar no mundo e em ti. Vou ali aos mares da Póvoa fazer o que faço todos os dias antes de começar a trabalhar. Para um lugar “só”, chamado “os profundos”…Os pescadores não gostam porque é um firmamento de água não tolerado a embarcações. Mas belo. Uma espécie de mar musical. Deve ser lá onde todos os pescadores se reúnem, regressados de outros tempos, para se fazerem poetas. Lá te encontrarei por certo, para grandes cavaqueiras, como sempre aconteceu por aqui. Pelo caminho descubro a maravilha surpreendente da forma dos remos e dos covos, sós, na areia, descuidados por alguém na labuta do dia anterior. Sobre este azul metálico do mar, da noite que não quer ir e de uma manhã que teima em voltar, uma paz toma posse dos nossos corações. Com grande saudade. Para o Miguel, Rui (30-12-2007; 08:33)
Rui Baptista | 08-05-2008 19:06:36
...saudade pelas inúmeras horas de conversa.... nuno
Nuno Gandra | 13-05-2008 0:02:08
Ao meu eterno amigo Miguel!
Aos dias,as horas,as eternas conversas... entre uma criança ,eu, e outra criança ,tu, foste realmente um amigo, que nunca pediu muito apenas amizade pura e verdadeira sem cobranças! Tenho falta de uma boa conversa sobre aquilo que eu ainda não sei e que tu mais uma vez me poderias ensinar!!!Estranho eu hoje realizo a passagem por mais uma primavera neste mundo e lembrei-me de quem assistiu algumas das minhas passagem pelas primaveras da vida.Alguém que definitivamente marcou uma presença na minha existência.
Ao Miguel D'Alte o Eterno Insatisfeito!!!
Tania | 14-05-2008 9:53:38
Meu querido amigo, lembrar-me-ei sempre de ti e dos momentos em que nos encontrávamos.
Já faz muito tempo. Mas pelo teu talento e carácter irreverente, é difícil esquecer-te. Mas sempre foste um grande amigo e vais deixar saudades. Tenho pena de não ter podido ajudar-te mais. A qualidade dos teus trabalhos e a perseverança com que te dedicaste à pintura não foram compatíveis com a compreensão da maioria. É difícil encontrar alguém coerente, como tu, que declarava, às vezes com tristeza, não saber fazer mais nada na vida senão pintar.
Até um dia, na eternidade...
Rodrigo Bettencout da Câmara
Rodrigo Bettencourt da Câmara | 14-05-2008 18:41:17
Querido amigo,
Sábado de manhã, a vida continua, embora sem ti e contigo sempre.É no teu riso,nas nossas tertúlias aqui em casa, a ver o Porto, a jantar com os nossos filhos,a cozinhares o arroz de feijão que te visualizo.É também nas inúmeras obras que me ofereceste que te prolongo e não choro. É a ver o teu filho Afonso todos os dias, a seiva DA tua seiva, que me encanto. É quando me cruzo com a Ana nas escadas e nos sorrimos, que continuas sempre. E sobretudo, querido amigo, a certeza que TU, ser autêntico e livre de ser livre nos dás força para sermos mais humanos. "Até breve" (cito a nossa "despedida eterna")
Zeza (Maria José Marinho Ferreira) | 17-05-2008 12:10:18
outro abrazo para Miguel, agora na memoria.
Xosé Poldras | 26-05-2008 8:42:20
Conhecemo em 1967 em Moçambique teriamos uns 12 anos e já o Miguel desenhava, pintava, esculpia e encantava. Já nessa altura era um ser superior. Grandes conversas noite dentro e madrugada fora e nem o "cacimbo" nos fazia parar.
Sempre fomos amigos, sempre me influenciou na forma de ver a luz, os enquadramentos, os volumes e sempre discutimos varios conceitos visuais.
Até sempre amigo.
Alexandre Bordalo | 28-08-2008 3:48:34
Olá Miguel!
Escrevo estas palavras para acompanharem uma exposição de trabalhos teus.
Faço-o na qualidade de amigo e colega, não apenas de profissão, mas também, e todos sabemos a importância que esse tempo assumiu para nós, como colega na Escola de Belas-Artes do Porto.
É uma exposição evocativa do teu trabalho como pintor, da obra que nos deixaste.
Foi sempre com profundo respeito que vi o teu trabalho. Desde muito cedo, tinha eu vinte anos, tu, mais dois, que convivi contigo na Escola, eras, de todos nós talvez aquele que mais personificava "O Pintor", na tradição do pintor ocidental. Sempre achei isso, embora nunca o tenha dito. A tua inquietude, as dúvidas, o entusiasmo perante a arte era contagiante e entusiasmante, fazia-nos sentir importantes no nosso papel de artistas.
Via -te com enorme carinho na tua pele solene e concentrada de artista, mesmo quando o Coelho dos Santos, com alguma razão, se referia a nós como potenciais artistas.
Era igualmente fascinante a forma divertida como brincavas com estas coisas da pintura, com as nossas aulas, são inesquecíveis os momentos das aulas de projecção de slides do Domingos Pinho, ou ainda quando saíste da sala com uma gargalhada travada a custo, quando um colega justificava o pouco trabalho em avaliação, com uma suposta doença que todos sabíamos claramente empolada.
Não sei como outras gerações de estudantes de arte funcionaram, mas que diabo, vivemos momentos de uma enorme qualidade pedagógica, claro que com muito mérito nosso.
Muito aprendi nesse ambiente que agora vejo com uma certa nostalgia, que por sinal não me incomoda nada. Afinal somos feitos desses tempos e o que aí vem, ainda não sabemos. Digo eu…
O que sei é que tiveste um papel determinante no nosso crescimento como artistas.
É verdade… a tua distracção. De qualquer modo julgo que o comboio, sem culpa, é que vinha distraído… ou adiantado, ou, sei lá, atrasado...que tremenda injustiça.
Obrigado Miguel, um abraço de saudade
José Emídio
Dalila Alte Rodrigues | 13-09-2008 14:30:11
é só para comunicar meu (?) "novo" /continuação de blogue: EU CÁ VOO CAMINHANDO. (http://eucvoocaminhando.blogspot.com).
abraço
(até 1 dia destes)
josé alberto mar
josé alberto mar | 19-09-2008 2:11:06
Em casa de amigos, as obras que agora se partilham têm estado recolhidas, acolhidas, abrigadas.
Têm feito parte do nosso respirar, presença calorosa a que nos habituamos, cumplicidade fraterna no escorrer dos anos.
São capítulos vários de uma história que o destino tornou demasiado breve. Folhas dispersas de um diário escrito em solitárias pinceladas de sombras e sonhos.
São notas soltas de uma pauta de linhas sinuosas, tortuosas, raramente paralelas à geometria segura das instituições.
Muitas vezes oferecidas, com o desapego de quem sabe que cada obra é apenas uma tentativa de nos aproximar um pouco mais da linha do horizonte onde se escondem todos os poentes, vivem em nossas casas, habitam as nossas almas.
E, assim, estás sempre perto, Miguel…
A. Domingos
Fevereiro 2009
(A CADEIRA DE VAN GOGH – Associação Cultural / Exposição: "Em Casa de Amigos..." por Miguel D'Alte, 7-28 Fevereiro, 2009)
António Domingos | 08-02-2009 17:02:20
De Marco para Miguel d' Alte
Muito gostaria de escrever alguma coisa, mas nada de criativo ou espontâneo me ocorre.
Consegui!
Era como se fosse de Verdade, o meu único Amigo de Verdade,
Tal era a forte empatia da sinapse que nos unia.
Era bastante semelhante, por dentro e por fora do invólucro,
Tal Alma, tal Corpo, minha, Dele, prometia.
Viagens pelo Cosmos da terra sonhamos,
Viagens sobre “certas” vivências pairavam,
Viagens a pé, de carro, de barco vivemos,
Viagens que creditavam Aqueles que acreditavam.
Saudades de Ti, Tio Amigo,
São a mágoa eterna na terra,
Lembranças dum alento que ferra,
Que com talento o Olhar que nos desterra…
Marco Ribeiro | 24-05-2009 2:23:50
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