O fumo do cigarro desenhava-se ondulante no espaço azul índigo, levemente prateado por um luar frio e distante. O homem recortado no velho sofá de couro preto contemplava o céu nocturno com um olhar inchado e vago. Os olhos cor de mel vidrados de álcool e meias lágrimas contidas à custa de um nó na garganta…centrava-se assim aquele vulto que continha algo de enigmático que parecia não querer integrar-se naquele contexto espacio-temporal. Vago pensament o embebido em indomáveis rancores e tristezas, soltava-se indo purificar-se nas águas do rio Minho e, quando regressava, o nó na garganta dissolvia-se e o personagem soltava aquele seu familiar suspiro gago de um semi-alívio monumentalmente eficaz.
Assim permaneceu durante horas, devorando cigarros e whisky, à ressurreição matinal do Sol. O dia seguinte era mais um para vencer…era mais um no amor amargo do vazio. Aquele vazio transformado em insistência, num misto de teimosia e fé que lhe valia a excomunhão e incompreensão da mesquinha comunidade artística, reduzindo-o à insignificância e impingindo-lhe uma miséria, nada condizente com o seu real valor.

Ao romper dos primeiros raios de sol, levantou-se vagarosamente para escancarar a porta de casa, deixando entrar uma luz arrefecida pelo nevoeiro matinal.
Vagueou pela marginal, olhando como sempre com olhos de pintor. Da paisagem minhota destacava infinitas tonalidades de verdes, traduzidas mentalmente, de imediato, para linguagem pictórica. Aquele sonho, invariavelmente o mesmo, nunca o conseguia agarrar…o resultado das suas obras era imposto pelo atrito entre o ser e o querer! Este pintor queria arrancar às coisas o seu segredo. Queria registar na tela a vivência de cada átomo. Inventar um código que representasse a verdade patética emergente de todos os fenómenos visíveis. Mas, simultaneamente pretendia desembaraçar-se do seu aspecto físico. A pintura como poética da cor e da luz. A pintura como saber mágico de fazer vibrar os enigmas da matéria.
O seu minúsculo atelier tornava-se infinito no abarcar longínquo do seu sentir. A materialização demorada, prolongada e sentida era lenta, titubeante e sempre suspeita.
E que dizer do ego? Aquilo que resta da fantasia lúdica de continuar?...
O olhar reduzido a um ponto. Desse ponto todos os pensamentos nasciam, percorrendo aquele espaço cósmico-mental que impõe a concretização da obra. Só assim poderia ser…
Aquele homem que queria conhecer a verdade cósmica era pintor!   O seu olhar dissolvia-se nas coisas físicas, misturando sonho e consciência. Alimento do processo. Solidão como segredo único e absurdo errante na conduta… quem quisesse ver Ó feliz, teria que amar silenciosamente os seus percursos visuais, a enorme lentidão do seu profundo pensamento e a sua mordaz ironia perante a vida. As suas ideias sócio-político-económicas situavam-se nos píncaros da utopia. Meia dúzia de amigos o mantinham vivo, comprando-lhe, ora um, ora outro, por preços modestos, o produto do seu trabalho. Pintura lenta, remexida e rebuscada…nunca estava acabada! A essência das coisas custava-lhe a traduzir. Ninguém partilhava com ele aquele delirante mistério que reduzia tudo a sombras, numa obsessão de procura instalada no vazio, na noite do desconhecido, repousando mesmo no insólito. A eterna pergunta que talvez valha a pena recalcar “donde venho, quem sou e para onde vou”…meu Deus (inventado) reconheço-te em tudo o que vejo. Amo a minha insuficiência de ver mais além. A solidão e a vil condição mental contrastam com o ser persistente que continua, continua, continua…o álcool sossega a mágoa, que na alma vai morando…
Noite firme no seu azul escuro. Ó pesquisa com o olhar tudo quanto existe dissolvido na noite. Deus percorre-lhe as veias, misturando-se com o sangue. As maravilhas de ver e interpretar registam-se-lhe nas retinas. O cérebro traduz constantemente em linguagem pictórica. A vontade de criar absorve-lhe a concentração. A partir da primeira pincelada desenvolve-se um processo tão complicado quanto absurdo. Pintura extraída da penumbra do pensamento. Mensagem estranha. O ser regula as sombras que lhe surgem diante da mente cansada de ver.


 

Presumível auto-retrato do pintor


 

MEU IRMÃO MIGUEL

Deixou-nos mais pobres e mais sós o menino de olhar grande e profundo, que conheço desde criança. Grande sempre foste meu irmão!

Inquieto, meditativo e respeitador de todas as liberdades, fraternal, emotivo e romântico, no verdadeiro sentido da palavra, a tua revolta foi sensível à injustiça social e à dor humana. Sem concessões, pintaste o que profundamente te tocava: a Praça de Tianamen, os massacres e os horrores da guerra, sem nunca deixares de exaltar, com intenso lirismo, a esperança e o sonho. Na intransigente luta pelos valores mais elevados, a tua obra é um exemplo de reflexão, no panorama artístico português.

Com extrema emoção, tudo disseste através do teu olhar crítico e penetrante, elegendo como palavras maiores e emblemáticas o Amor, a Liberdade e a Poesia, as mesmas que Mário Cesariny assumiu, citando Novalis: "A Poesia é esse real absoluto (…) quanto mais poético mais verdadeiro".

Bem vivas ficaram na nossa memória as tuas alegrias e fantasias de criança, como quando pedias, por volta dos 3 anos de idade, à nossa irmã Tatão: "vamos à nossa vida é circar?"…E ela te fazia rir, quando davas uma cambalhota dos seus ombros para o chão. Como tu gostavas dessa brincadeira! Foi quando rapaste os teus loiritos caracóis, para mostrares que não eras uma menina e baixaste as calças na rua para quem o quisesse confirmar…

Lembras-te do banho que deste ao "jirico" de papelão? Lá ficou todo desfeito, coitado! Que saudades, meu irmão, desse tempo em que brincávamos e crescíamos juntos!

Recordo a tua natureza impulsiva, que sempre se abeirou do perigo. No terraço da casa da Rua da Torrinha, no Porto, aos 5 anos, quase ficaste cego com o estilhaço dum frasquito de vidro, o teu brinquedo preferido. Desde então, a obrigação de usares óculos até ao teu último adeus. Os óculos que não puderam ajudar-te a ver o comboio que, subitamente, tão cedo te arrancou a vida! Desfecho trágico que tanto nos perturbou e que nos reporta à tua acidentada trajectória, desde a infância. Tudo te acontecia, meu irmão! Em criança, caíste abaixo da cama e partiste uma perna. Atacou-te ainda uma "primo-infecção" os teus pequenos e frágeis pulmões…

Mas nem tudo era mau, graças à tua capacidade de sobrevivência e apego à vida, e graças ao teu sentimento altruísta de gostar de ajudar o que precisam. Cerca de 6 anos mais velha do que tu, lembro-me da "sabedoria" que trazias da 1ª classe, para ensinares o Silva, rapaz moçambicano que trabalhava lá em casa, na cidade da Beira. Lembro-me que foste tu e a Mãe que o ensinaram a ler.

Desde muito cedo, a tua personalidade lúdica e criativa manifestava-se nas mais pequenas coisas. E tiveste a coragem de fazer sempre o que quiseste. No 4º ano do liceu, deixaste os pais preocupados. Não querias estudar. Querias pintar. Mas acabaste por lhes fazer a vontade: num só ano lectivo fizeste o 4º e o 5º ano; logo depois, o 6º e o 7º.

Na E.S.B.A.P., os pintores Domingos Pinho, Álvaro Lapa, Maria José Aguiar e Ângelo de Sousa, e os colegas Carlos Dias (Alberto Péssimo), Rui Baptista, Tó Domingos, José Alberto Mar e José Emídio (a "elite" lá do sítio), permaneceram entre os teus maiores amigos.

De que te serviu a Academia, que não quiseste acabar?! Ainda hoje todos reconhecem a tua capacidade oficinal e poder de invenção, que fundamentaste no estudo e investigação de aspectos específicos relacionados com a expressividade da tua linguagem plástica. O teu mérito foi reconhecido pela Escola Superior Artística da Cooperativa Árvore no Porto, onde, durante alguns anos, foste professor de pintura. Muitos dos teus alunos se tornaram artistas.

Cada vez mais decidido a dedicares-te inteiramente à pintura, foste conquistando o teu espaço, desde o improvisado atelier na Galeria Alvarez, com o apoio do pintor Jaime Isidoro, até aos que partilhaste com colegas de profissão, na cidade do Porto.

Em meados dos anos 80, o teu amigo e músico José Eduardo acolheu-te na sua casa de Lanhelas, a dois passos de Vila Nova de Cerveira, onde um restaurante te servia refeições diárias, a troco das tuas aguarelas, que registam a luz e a beleza da paisagem local. Bem perto, lembro-me da casita que, em seguida, alugaste em Moledo do Minho, onde todos reivindicávamos a tua companhia, o teu "Paraíso". E, embora muitas vezes te quisesses isolar para pintar, sempre nos acolheste com amizade e simpatia. Junto à fronteira, Moledo do Minho já foi palco de fugas, aflição e represálias, que a pintura de António Pedro documenta. A praia da "Ilha do Cão" reflecte a tensão dramática da Guerra Civil de Espanha, anterior à II Guerra Mundial. Moledo do Minho ficará na História da Pintura Portuguesa.

No Porto, partilhavas o atelier da rua de Cedofeita com o Eduardo Sotto Mayor, esse teu querido amigo que agora te homenageia com um site da sua autoria. Entre o Porto e Moledo te dividiste desde então, transportando a paleta e os pincéis da tua "sobrevivência".

Embora apreensivo com o futuro, casaste, em 1990, aos 36 anos de idade, com a Ana Venade, mãe do teu filho, com quem aperfeiçoaste a sensibilidade musical que já revelavas desde muito novo. Felizes foram os anos de Lisboa, onde tivemos a oportunidade de nos encontrarmos mais vezes, na tua e na minha casa. "Não sei fazer mais nada a não ser pintar" – confessavas humildemente. Para além das paixões que despertaste, a pintura e o teu filho, que consideravas a tua "Obra-Prima", foram os maiores amores da tua vida. Enquanto a Ana dava aulas de música na escola, ocupaste-te do Afonso a tempo inteiro, dividido entre a pintura e os seus cuidados. Ambos fomos sensíveis à pureza do seu traço infantil, e por isso dediquei várias páginas de um livro meu à sua imaginação e criatividade. Como ficaste contente, meu irmão! Que orgulho demonstraste! Todos sabemos que, além de pintor, foste um pai extremamente dedicado. Foi com profunda emoção que ouvimos o teu filho elogiar-te na hora do adeus…

A vida quis que regressasses a Vila Nova de Cerveira, onde tinhas já deixado a tua "marca" pessoal nas sucessivas "bienais" de arte. Lembro-me do nosso jantar de despedida com o Rodrigo, o Eurico e outros amigos, na cervejaria Trindade. Foi quando completaste os teus 50 anos e te ofereci, como prenda de aniversário, a maleta verde que trazias quando vinhas a Lisboa para veres o Afonso. Ficavas então em minha casa. Testemunhei ao vivo quão doloroso era o teu afastamento, no regresso ao Norte.

Alternando Cerveira com periódicas estadias no Porto, onde tinhas os teus contactos e pintavas no espaço de trabalho do nosso irmão Rolando, teu Amigo incondicional e "alma gémea" da mesma aventura, mergulhaste na solidão do teu cantinho de Vila Nova de Cerveira, onde permaneceste e permanecerás sempre no nosso imaginário. Aí tiveste bons Amigos: o "Minhoca", a Margarida Leão, o Henrique Silva, o José Rodrigues, a Lindinha, o Torres, o Arsénio, …a Gata Christie …e partiste sem teres tido tempo para encontrar o Cão Dinsky! (O teu particular humor é por todos nós lembrado, meu irmão!)

Como conseguiste sobreviver a tantas dificuldades?! A que deves tamanha energia criadora?! Onde foste tu arrancar toda essa força?! O nosso irmão Emanuel, professor de Educação Física, surpreendia-se com a tua vitalidade!

Ao viveres da tua arte, mal tiveste tempo para a mostrar e divulgar com a amplitude que merece. Como dizes nos teus "escritos", havia que pagar o pão e a renda de casa…

Graças à generosidade dos teus coleccionadores, realizaste algumas significativas exposições individuais, que despertaram a atenção da crítica (Eurico Gonçalves, Eduardo Paz Barroso, Bernardo Pinto de Almeida, Fátima Lambert…)

Lembro-me das pinturas que fazias e refazias de forma sofrida, até conquistares a alegria de poderes dar por acabado o que afinal sabias não ter acabamento possível…É nesse acto mágico de suspensão que reside verdadeiramente o mistério e o significado da tua obra e da tua vida.

Inéditos permanecem alguns belos textos que escreveste, bem como a esperança de os reunir junto da tua obra plástica mais representativa, que se distribui por dezenas de amigos, familiares, galeristas e coleccionadores. Um amigo muito especial, o Dr. Tavares Correia, acreditou em ti e foi o teu grande apoio dos últimos 15 anos. Através dele, teremos, felizmente, a possibilidade de reunir uma boa parte dos teus desenhos, objectos, cerâmicas, pinturas e esculturas.

Lembro-me de te ouvir dizer, há já muitos anos, revoltado com a incompreensão do real valor da tua pintura, que ainda havias de ser rico! Mas tu próprio distingues o Ser e o Ter nos teus manuscritos! Original, autêntico e inconfundível, admiro-te pelo que conseguiste Ser, ao fazeres tudo do pouco ou nada que tinhas ao teu alcance, como o teu último e dramático auto-retrato, pintado no cartão de uma embalagem de leite!

A sociedade não te mereceu, nem te compreendeu, meu irmão! Antes para Cadilac, que para a viagem ao sonho da tua pintura…

Da revolta à resignação, o papelito que deixaste sobre a mesa da casa da Rua do Rosário, onde dormiste a tua última noite, é revelador de ti e da vida simples que levavas…

Cerca de um mês antes de nos deixares, no registo fotográfico da tua mão guardei o arco-íris que atravessava o meu quarto! É talvez essa a luz onde te encontras, esse espaço infinito ou cósmico dos teus quadros…

Na manhã inesquecível do dia 31 de Dezembro de 2007, nunca o Rio Minho foi tão sereno e silencioso para acolher as tuas cinzas e a profunda emoção de todos os que ali te prestaram a sua última homenagem. A tua urna foi enterrada, por vontade do teu filho Afonso, hoje com 15 anos de idade, junto das rochas que pintaste na II Bienal Internacional de Vila Nova de Cerveira, em 1980. Tal intervenção na Natureza foi assinalada com uma Menção Honrosa.

As orações e as preces que fizeste, de nada te serviram, meu irmão! Talvez agora, mais perto de Deus, possa Ele ouvir-te onde tu estás, para que enfim encontres o eterno descanso. Reserva-nos um lugar à vossa mesa, para a Ceia que ficou por fazer. Lá nos reuniremos todos novamente e tu nos ensinarás as "praxes" da Casa. Ao som da música dos anjos, nesse enigmático Reino em que te encontras, permanecerás o nosso pintor e o nosso músico autodidacta.

A tragédia pairava sobre ti, meu irmão! Partiste, deixando um rasto de sangue e de Saudade! Hoje, És Sol! És Céu! És Rio! És Chuva! És Terra! És Vento! És Tempo!

És Sonho!

Hoje, mais sereno do que nunca, por ironia do destino, darás o teu nome a prémios e "bienais"…

Tua irmã que sempre te adorou

Dalila (Lili)



O PINTOR DA OBSCURIDADE E DA LUZ

A vida e a morte sempre se conjugaram na pintura dramática e/ou intensamente lírica de Miguel d’ Alte, cuja paleta oscila entre os tons sombrios de densos negros e cinzentos e a súbita claridade de brancos sabiamente doseados em amplas áreas onde, por vezes, emerge a vibrante cor tímbrica de amarelos, vermelhos, azuis e verdes.
A cor matérica e espatulada condensa em si a árdua experiência do pintor, que sempre se debateu entre a dor, a paixão e a ânsia de viver, com uma inesgotável energia vital.
A sua obra plástica revela uma grande maturidade técnica e um inconfundível estilo original, no domínio de uma abstracção que, por vezes, se abeira da figuração fantasmática e surreal, em composições onde a mancha informal dilui parcialmente a rigidez da estrutura geométrica, acentuadamente rectilínea, demarcando planos de construção, que se interceptam e criam sugestões de transparência e opacidade para aquém e para além do plano frontal do suporte. É a visão cósmica de um espaço ilimitado que importa sublinhar nestas composições pictóricas muito elaboradas, executadas com mestria e sensibilidade, quantas vezes até à exaustão, entre a grande complexidade e a extrema simplicidade a que se reduzem algumas das suas melhores obras.


A VIDA E A ARTE
O RISCO DE QUEM ARRISCA


Para Miguel d’ Alte, a vida e a arte foram sempre o risco de quem arrisca na vertigem do salto mortal.
Como um equilibrista que dança na corda bamba, o pintor voa, contrariando a força da gravidade, ou precipita-se no abismo do espaço sem fim – o espaço cósmico que ele gostava de referir e que as suas últimas obras eloquentemente exprimem.
Na tentativa de explicar o inexplicável, a sua pintura árida, feita de luz e sombra, é tão dramática, nocturna, fantasmática e surreal quanto lívida e lírica no amanhecer de constantemente. Sempre o imaginei a pintar a noite inteira até de manhã.
Gostava de se levantar cedo, ao alvorecer do novo dia. Cumpria a vida e a arte como um ritual, deambulando em torno do que incessantemente começava e não acabava nunca. Era metódico e meticuloso nesse seu modo de abordar o real, em sucessivas telas, senão numa única tela que pudesse condensar e sintetizar todo o seu saber oficinal, jamais desligado da emoção e do sonho de grandeza que o motiva. Miguel d’ Alte é o pintor que aspira a sentir a complexidade da vida e do mundo na textura da cor matérica, espatulada com energia. Entre a aspereza e a macieza da superfície, a tactilidade conjuga-se com a visualidade do espaço pictórico.
Sensível a Cézanne e a Van Velde, trabalha na fronteira da figuração-abstracção, fazendo, desfazendo e refazendo o quadro, considerado como um todo que, na sua visão frontal, nos devolve a imagem residual e global do que resta e subsiste de mil noites de sobressalto e desassossego, e mil manhãs de esperança e sobrevivência.
No apagamento parcial de uma experiência dolorosa e ávida, tudo volta a ser o que sempre foi, na sua essência elementar. O espaço aberto e ilimitado ressurge na sua pureza máxima, em termos especificamente pictóricos.
Miguel d’ Alte sabia que tinha de penetrar profundamente na complexidade da noite, na floresta dos desejos para, a partir dessa noção do cheio fraternal e humano, sentir a necessidade de alcançar a noção do vazio libertador na aridez do deserto, que a sua pintura mais radical também atravessa e plenamente assume.


REQUIEM

A morte atrapalha a vida de quem quer viver. A morte é um alívio para quem não quer viver. Entre a vida e a morte não há conciliação possível.

 

Texto de Miguel d'Alte (s/ data)


Chorar a morte dos outros é chorar a própria morte; é sentir a perda de um ente querido, um amigo que faz falta à nossa própria existência.
Há quem se inspire na tragédia para sobreviver através da pintura, da música, da escrita, da obra de arte, que é o que o homem realiza de mais elevado e sublime, nesta vida terrena, efémera e, no entanto, profundamente humana e apaixonante.
Conheci pintores e escritores meus amigos como o António Maria Lisboa, o Manuel d’ Assumpção, o João Rodrigues, o José Escada, o Gonçalo Duarte, o Mário Botas, o Álvaro Lapa e o Miguel d’ Alte, que fizeram da vida um acto iluminado de loucura lúcida, que culminou no desespero da doença incurável, no suicídio e no desastre da morte súbita e inesperada. Apesar disso ou talvez por isso, deixaram uma obra notável, assumida entre o drama e a vontade de sobreviver, à custa de muita persistência em algo de muito pessoal, autêntico e original. Foram verdadeiros heróis à sua maneira ou anti-heróis no melhor sentido do termo. Por isso, os admiro e não os esquecerei nunca!
O mais recente caso e o mais próximo é o pintor Miguel d’ Alte, cujas cinzas, a seu pedido, lançadas no Rio Minho, em Vila Nova de Cerveira, numa manhã serena e silenciosa, me proporcionaram uma nova visão da vida e do mundo.
Naquele sítio, onde viveu os seus últimos anos, tudo fazia sentido: o nada em que nos transformamos e o apego à vida que prevalece na nossa memória, testemunhada numa obra pictórica, que urge redescobrir e reestudar em toda a sua amplitude.

Dezembro 2007
Eurico Gonçalves

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